Bem Me Quer, Mal Me Quer, dirigido por Laetitia Colombani, nos apresenta Angélique – uma artista plástica que desenvolve uma paixão desmedida pelo médico Loïc. Segundo minhas pesquisas no Google, o longa aborda a tal Síndrome de Clèrambault: delírio convicto cujo a pessoa acha estar sendo amada por alguém, mesmo nunca tenha tido um contato próximo à ela. Essa doença também é conhecida como erotomania. Esses delírios geralmente ocorrem para satisfazer a procura por experiências sexuais ou na adaptação em dificuldades que o sujeito sofre na vida.
Para não saírem espalhando por aí que esse blog é uma terra de tragédias, finalizo o post com uma outra lembrança cinematográfica: o longa francês Um Lugar na Platéia, de Danièle Thompson. A comédia é uma verdadeira celebração a principal arma para enfrentarmos esses tempos modernosos: o amor próprio.
Música Without You I´m Nothing – Placebo e David Bowie
A cabeça caiu no chão e partiu-se em duas. Numa delas, o garotinho em forma de miniatura permanecia estático. Na outra, haviam gentinhas – no diminutivo, pois eram diminutas – de todo o tipo que esse mundo já viu. Elas corriam de um lado para o outro como se estivessem procurando uma porta.
Passado alguns instantes, as pessoinhas começaram a ficar cansadas e caíram exaustas no meio dos miúdos do crânio partido. Foi quando o garoto pequenino pulou para a outra parte e matou a todos. Agora, ele é o único dono da cabeça.
O número 1735 da movimentada Avenida Loureiro da Silva, no boêmio bairro Cidade Baixa, é o endereço de uma construção que lembra os castelos medievais. Na chegada, nada de portões eletrônicos ou câmeras de vigilância. Para ter acesso ao interior, o visitante tem que girar uma roldana de madeira de onde recebe uma grande chave enferrujada que dá acesso à sala de visitas.
A recepcionista não veste minissaia nem usa perfume, o seu eu não permite. Vestida com a cor da sua ordem – o marrom – e com óculos fora de moda, que deixam os olhos azuis com um tom esverdeado, Irmã Benedita e seu sorriso são responsáveis por recepcionar os visitantes do Mosteiro Nossa Senhora do Carmo. A visita, entretanto, é mediada por uma grade desgastada pelo tempo.
Aos 52 anos, Benedita Domingues da Silva não acha respostas para explicar o porquê tornou-se o que é. Desde pequena escutava uma voz que lhe sussurrava no ouvido qual deveria ser o seu caminho. Contudo, pertence ao tempo em que a opinião do pai era a que valia. Foi somente depois da morte dele, quando ela tinha 25 anos, que realizou o sonho que tinha desde criança: viver em contemplação a Deus.
Leva uma vida simples como dizem ser a felicidade, preenchida com afazeres domésticos e orações. Nunca se arrepende em ter trocado as milhões de possibilidades do mundo pelo eterno silêncio do mosteiro. Afinal, Irmã Benedita está em paz consigo mesma e talvez o mais importante: com as suas escolhas.
Duas palavras resumem o filme Speed Racer: sentido e intensidade. Não que o novo longa dos irmãos Wachowski – os mesmos diretores de Matrix – seja uma viagem filosófica sobre tais temas, mas a história do herói criado em 1967 por Tatsuo Yoshida nada mais é do que a luta de um jovem idealista em busca das coisas que fazem sentido para ele. Tudo com muita intensidade e cor.
Parece simplista resumir Speed Racer em duas palavras já que assistimos a um vislumbre visual que – sem medo de escrever besteira – é totalmente inovador e algumas cenas equivalem em sensação às obtidas em games, só que com mais cor e impacto. É provável que daqui uma década ainda se fale do “Speed Racer dos Wachowski” com reverência. Entretanto, o que realmente me fascinou nesse filme foi a bela adaptação da história que poderia ficar ofuscada com tantos efeitos visuais, mas que ganhou forma e por vezes até emociona.
Speed Racer – protagonizado por Emile Hirsch, o mesmo do maravilhoso Na Natureza Selvagem – narra a história de um garoto que nunca teve dúvidas do que queria na vida: correr. Esse era o sentido maior que o movia. No caminho, não faltaram pedrinhas o desviando desse objetivo. Contudo, o intenso Speed Racer joga-se na pista como se cada corrida fosse a última de sua jovem existência. Quanto mais obstáculos, mais espetáculo de cores psicodélicas o telespectador verá. Assim como na vida, o resultado das coisas mais difíceis são as mais belas.
Num mundo onde é freqüente as pessoas abrirem mão de seus “sentidos” em troca da estabilidade dos concursos públicos, Speed Racer é um tapa na cara colorido. Ele faz você entrar na pista, correr e – se possível – vencer.
O filme acabou. Ela virou a cabeça para o lado esquerdo e adormeceu. Fechei os olhos e tentei dormir também. Sonhos ou pesadelos não vinham. Não que fosse avesso a transformar meu corpo num receptivo templo do sono para meu amor, o que fazia os meus olhos ficarem abertos eram as coisas que permaneciam vivas em minha volta.
Enquanto ela parecia ter atingido o êxtase, tudo que me cercava incomodava. A televisão que permanecia ligada, o vento frio que entrava pela janela e fazia os meus DVD’s guerrearem numa luta de empurra-empurra e, agora, a minha incapacidade de adormecer como ela. Se fosse um jogo, teria perdido.
Comecei a pensar em formas de como escapar daquela posição sem acordá-la. Contudo, cada pequeno movimento que fazia parecia trazer-lhe mais próxima para a realidade dos acordados. O sono dela parecia tão frágil quanto às mãos pequeninas e branquelas que jaziam sobre o meu peito.
O relógio do rádio – que piscava com sua luz azul detestável - me avisava que já havia passado intermináveis quarenta minutos. Ela realmente tinha alcançado as profundezas do sono e talvez fosse despertar somente no outro dia. Eu estava fadado a passar a noite em claro, acorrentado ao sofrimento das minhas manias não praticadas naquela noite e de meus pensamentos inconvenientes. Aliás, agora estava a pensar sobre não ter escovado os dentes. Quantas bactérias teriam aproveitando esse deslize e se instalado na minha boca? Estava decidido: na segunda marcaria uma consulta no dentista.
Meu corpo também dava sinais de cansaço. Os braços pareciam um pedaço de madeira podre sendo atacado por cupins e a bexiga estava disposta a transformar meus lençóis num mictório fedorento. Foi quando, como num sonho, a claridade da janela escancarada mostrou-me os olhos dela abertos. Ela beijou-me a bochecha e disse:
– Amor, não consigo dormir. Você pode fechar a janela e desligar a televisão?
O dia começa. Você acorda. Toma um banho escutando em alto volume suas bandas preferidas. Come fandangos com coca-cola, apesar de todos dizerem que isso não é saudável. Despede-se das pessoas e coisas que vivem ao seu redor, as quais tanto ama. Entra no elevador. Cumprimenta a vizinha do cabelo roxo do décimo andar. Abre o portão e, agora, não está mais seguro.
Com as tantas possibilidades de interpretações do filme Ensinando a Viver (Martian Child / EUA/2007) – que vale lembrar que foi baseado em um conto do escritor David Gerrold – o que se sobressai, na minha opinião, foi o que tentei ilustrar no parágrafo acima: o lugar seguro que todos buscamos.
No começo do longa, o garotinho Dennis – interpretado por Bobby Coleman - tinha uma caixa de papelão como “moradia”. Entretanto, tudo mudou quando o escritor de ficção científica David – protagonizado por John Cusack - viu nele o seu próprio lugar seguro. Daí por diante, ocorre uma construção mútua de uma relação pai-filho sem perder de vista as particularidades de ambos. Mesmo que essas – da parte de Dennis – seja nutrir hábitos marcianos.
É bom frizar que não me refiro apenas a lugares físicos onde você se enclausura e está livre de todos os perigos terráqueos. Está em pauta um território imaginário – formado por pessoas amadas – onde poderá se despir de todas as máscaras sociais. Aqui, está seguro. Você pode ser de Marte ou de qualquer outro Planeta. Entretanto, lembre-se: lá fora – junto com os terráqueos – você tem que seguir as normas da Terra, por mais hipócritas que elas possam ser. E muitas delas são mesmo.
Ensinando a Viver, como o título sugere, também é uma lição de como ser um humano num mundo de soldadinhos que marcham a mesma música. Em determinado momento, a editora de David o questiona: “porque você não é aquilo que a gente espera de você”. O escritor torce os dedos, imagina que sua mão tornou-se uma arma marciana e parte para o lugar onde estará seguro. Lá, ninguém espera mais do que realmente ele é.
O cara aí da foto é o Andrew VanWyngarden, que ao lado do seu colega de universidade Ben Goldwasser, formou o grupo MGMT – pronuncia-se “Management”. A banda nova-iorquina se mostra inovadora e parece viver numa espécie de era paz e amor pós-moderna. A sonoridade é um electro-rock baseada no retrô, pop psicodélico e dance music. Comece a descobrir o MGMT com Time To Pretend, cores saltarão no seu micro.
Imagine a cena: você é um agente imobiliário pobretão e gostaria muito de morar num dos lindos apartamentos que mostra para seus clientes. Num impulso romântico, resolve tirar uma casquinha do seu posto e convida seu love para uma noite numa dessas maravilhosas habitações. Só que algo sai errado: você encontra uma mala de dinheiro de um defunto. Acha que sua vida acaba de se resolver para sempre. Ledo engando…
O parágrafo acima – levemente adaptado – é a história do filme espanhol A Comunidade, de Álex de La Iglesia. Apesar do longa ser de 2000, não tenho dúvidas que foi uma das produções mais instigantes que assiti nos últimos tempos. Ele mostra de forma sarcástica, engraçada e por vezes horripilante a luta – literalmente – por dinheiro. O telespectador mais atento pode notar influências de Delicatessen, filme que revelou o diretor Jean-Pierre Jeunet – de Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Aliás, outra obra que não pode deixar de ser vista.