
Provavelmente, você já deve ter escutado uma história parecida com a de Bianca: guria pobre, boa aparência, com o sonho de melhorar de vida e que um dia recebe um convite para trabalhar na noite. Garotas como ela aspiram curiosidade e são personagens corriqueiras de filmes, novelas e de nosso imaginário. Entretanto a vida dela não se resume somente ao fato de estar à mostra como um produto à venda na subida da Rua General Vitorino, no Centro de Porto Alegre. Bianca também tem outros eus, e esses freqüentam shoppings, passeiam nos parques nas tardes ensolaradas de domingo e choram ao ver a filha triste.
Com 17 anos, Bianca teve o primeiro contato com a profissão, que desempenha há dez anos. Logo no primeiro dia de serviço, a então adolescente conheceu coisas que só tinha assistido em filmes americanos. Seu primeiro cliente quase foi o último, não fosse ter corrido o máximo que suas finas pernas conseguiram. Senão teria sido estuprada ou, talvez, morta. A noite tem dessas coisas, o escuro parece dar vida a eus que permanecem reclusos à luz do dia. Passado o susto, hoje, a garota de programa em média atende três homens por noite ao preço de R$ 50. “Época de vacas magras”, conta Bianca, lembrando do tempo que conseguia atender até cinco.
Quando criança, Bianca queria ser arquiteta. Dessa época, só sobrou a mania de combinar tudo, principalmente as cores. A boca, vermelha como as melancias que aparecerem no supermercado no verão, combinam com a calça, justa como a profissão exige. Os sapatos fazem dupla com o bustiê, ambos pretos e pequeninos. O tom amarelado da tinta barata dos cabelos realça a cor mel dos olhos, essa fruto da genética.
Se fosse pelas funções que desempenha, a garota de programa mereceria uma promoção. Pois, além de satisfazer os eus mais íntimos dos clientes, ainda tem de ser psicóloga. Nesses dez anos de esquina, ouviu coisas que com certeza renderiam um best-seller, desses que agora estão na moda. Um dos últimos casos que Bianca teve de ajudar foi de um homem que a procurou para saber se deveria relizar uma fantasia de sua mulher, a qual queria transar com outro homem, pois estava cansada de há 20 anos ter relações com o mesmo parceiro. Bianca pediu uns dias para refletir sobre o assunto.
– Tudo na vida tem riscos. Tu pode perder a mulher se ela gostar muito do cara e, ao mesmo tempo, se tu não realizar essa fantasia, pode perder ela por monotonia mesmo. O melhor é deixar a vida responder sozinha – diagnosticou para o cliente depois de muito pensar.
A grande alegria da vida de Bianca também é o seu maior medo. Só de pensar que a filha de dois anos, fruto de uma paixão de Carnaval, pode vir a se tornar o que ela é faz com que perca noites em claro. Bianca quer que a filha realize coisas que ela não realizou, seja eus que ela não foi.