Arquivo para Junho, 2008

A inocência malvada de Ladytron

Junho 28, 2008

         Há quase um ano e meio, nenhuma outra banda consegue tirar a Ladytron do topo da minha lista de grupos preferidos. Com o seu novo álbum, Velocifero, a turma de Liverpool sentou no trono de vez.

        Na primeira vista, Ladytron parece mais uma banda moderninha que dá muita importância para o visual. Contudo, deixado os pré-conceitos de lado, o que se ouve é boa música guiada pelos vocais diabolicamente doces da búlgara Mira Aroyo e da escocesa Helen Marnie. Também formam o grupo: os ingleses Reuben Wu, descendente de chineses, e Daniel Hunt – que é fã de Zé do Caixão e namora uma brasileira.

          O álbum Velocifero, o quarto da carreira dos andróides da Ladytron, traz um som ainda mais emblemático. Qualquer tentativa de caracterizá-lo parece ingênua – as canções passeiam do pop inocente até o gótico-punk-futurista. Tudo isso com direito a letras com mensagens pesadas e contemporâneas. Escute a cativante canção Versus e entenda o que estou falando.

Assista ao clipe da canção Ghosts

O certo

Junho 26, 2008

          Ele abriu a carteira. Dentro: mil reais que seu pai havia lhe dado para pagar o aluguel atrasado. Alisando as vinte notas com oncinhas, pensou em dar outro rumo àquela dinheirama.

          Pensou em comprar uma passagem para Buenos Aires e tornar-se vendedor de artesanato na feira de San Telmo. Pensou em aplicar tudo na bolsa de valores e esperar o dinheiro render novos animais. Pensou em mentir que foi assaltado e gastar tudo em revistas de quadrinhos. Pensou em comprar flores de plásticos e vender aos domingos nas portas dos cemitérios. Pensou também em doar o dinheiro para o primeiro mendigo que cruzasse o seu caminho.
 
           Acabou fazendo o certo. Pagou setecentos reais do valor do aluguel. O restante chama-se juros.

O medo de Bianca

Junho 25, 2008

          Provavelmente, você já deve ter escutado uma história parecida com a de Bianca: guria pobre, boa aparência, com o sonho de melhorar de vida e que um dia recebe um convite para trabalhar na noite. Garotas como ela aspiram curiosidade e são personagens corriqueiras de filmes, novelas e de nosso imaginário. Entretanto a vida dela não se resume somente ao fato de estar à mostra como um produto à venda na subida da Rua General Vitorino, no Centro de Porto Alegre. Bianca também tem outros eus, e esses freqüentam shoppings, passeiam nos parques nas tardes ensolaradas de domingo e choram ao ver a filha triste.

           Com 17 anos, Bianca teve o primeiro contato com a profissão, que desempenha há dez anos. Logo no primeiro dia de serviço, a então adolescente conheceu coisas que só tinha assistido em filmes americanos. Seu primeiro cliente quase foi o último, não fosse ter corrido o máximo que suas finas pernas conseguiram. Senão teria sido estuprada ou, talvez, morta. A noite tem dessas coisas, o escuro parece dar vida a eus que permanecem reclusos à luz do dia. Passado o susto, hoje, a garota de programa em média atende três homens por noite ao preço de R$ 50. “Época de vacas magras”, conta Bianca, lembrando do tempo que conseguia atender até cinco.

             Quando criança, Bianca queria ser arquiteta. Dessa época, só sobrou a mania de combinar tudo, principalmente as cores. A boca, vermelha como as melancias que aparecerem no supermercado no verão, combinam com a calça, justa como a profissão exige. Os sapatos fazem dupla com o bustiê, ambos pretos e pequeninos. O tom amarelado da tinta barata dos cabelos realça a cor mel dos olhos, essa fruto da genética.

            Se fosse pelas funções que desempenha, a garota de programa mereceria uma promoção. Pois, além de satisfazer os eus mais íntimos dos clientes, ainda tem de ser psicóloga. Nesses dez anos de esquina, ouviu coisas que com certeza renderiam um best-seller, desses que agora estão na moda. Um dos últimos casos que Bianca teve de ajudar foi de um homem que a procurou para saber se deveria relizar uma fantasia de sua mulher, a qual queria transar com outro homem, pois estava cansada de há 20 anos ter relações com o mesmo parceiro. Bianca pediu uns dias para refletir sobre o assunto.

            – Tudo na vida tem riscos. Tu pode perder a mulher se ela gostar muito do cara e, ao mesmo tempo, se tu não realizar essa fantasia, pode perder ela por monotonia mesmo. O melhor é deixar a vida responder sozinha – diagnosticou para o cliente depois de muito pensar.

           A grande alegria da vida de Bianca também é o seu maior medo. Só de pensar que a filha de dois anos, fruto de uma paixão de Carnaval, pode vir a se tornar o que ela é faz com que perca noites em claro. Bianca quer que a filha realize coisas que ela não realizou, seja eus que ela não foi.

Tudo se ilumina

Junho 19, 2008

         Comprei um girassol. A sua beleza amarela durou apenas quatro dias. No quinto, ele murchou. Prefiro acreditar que foi culpa do frio.

        Falando nessas plantas que passam o dia fitando o sol, lembrei do filme Uma Vida Iluminada. Baseado no livro do escritor Jonathan Safran Foer, o longa – primeira direção do maluquinho Liev Schreiber – traz o ator Elijah Wood como protagonista de uma história sensível e engraçada que narra a busca de um garoto por uma mulher que salvou seu avô na 2ª Guerra Mundial. E é nessa viagem até a Ucrânia que surgem os campos de girassóis e uma fotografia magnífica – como essa que ilustra o post.

        Ah, para entender porque chamei o diretor Liev Schreiber de maluquinho assista aos extras do DVD de Uma Vida Iluminada. Bom filme!

Assista ao trailer de Uma Vida Iluminada

Veja a cena onde os girassóis aparecem no filme

A pequena nómada Lhasa de Sela

Junho 12, 2008

           No fabuloso e eclético mundo da boa música existe uma categoria que chamo de “Mulheres com Vozerão”. Lá, reinam seres com os cromossomos XX e suas vozes roucas. Num desses tronos, está a pequenina Lhasa de Sela – uma cantora com carinha de gnomo nascida na cidade de Big Indian, no estado de Nova Iorque e que atualmente reside em Quebec, Canadá.

           Lhasa de Sela é uma nómada (sim, essa palavra existe) e isso se reflete em sua música – que mescla tradição mexicana, klezmer e rock e é cantada em três idiomas: espanhol, francês e inglês. Sua ascendência é de um lado mexicana e de outro americano-judeu-libanesa. É filha de um professor – não convencional, que percorria o EUA e o México difundindo o conhecimento – e de uma fotógrafa. Assim, passou sua infância, de maneira nômade, junto com seus pais e suas três irmãs.

            A cantora tem apenas dois álbuns lançados – La Llorona, 1998, e The Living Road, 2003. Escute algumas canções de Lhasa de Sela clicando aqui.

Entrevista e performance de Lhasa de Sela

Assista ao clipe da música Con Toda Palavra

O ferro que brotou na boca

Junho 6, 2008

           O telefone toca.  No outro lado da linha, uma voz com sotaque de caubói americano anuncia: acabo de ganhar dois convites para o Cirque de Soleil.  Alegria! Alegria! Sou um cara de sorte. Comemorei a boa nova com um fatídico lanche. Na primeira mordida no sanduíche, que deve ter sido feito à base de pedra brita, o ferro brotou na minha boca.

            Tentei manter a classe. Empurrei o ferrinho de volta com toda a sutileza que não tenho – estou inovando. Caminhei pausadamente até o banheiro. Lá, entendi o ocorrido: o fio metálico que dá sustentação ao meu aparelho dentário partiu-se no meio. Não havia motivo para pânico, puxaria o dito cujo e marcaria uma consulta com minha dentista no dia seguinte. Tudo estaria resolvido. Entretanto, não foi esse o fim desta história.

            O ferro não saía e as minhas tentativas de arrancá-lo estavam deixando os outros presentes no banheiro preocupados. “Tu vais te matar, maluco” – disse um cara que secava as mãos com uma toalhinha da Mônica. Depois de embasada advertência, resolvi pedir ajuda.

            Com uma voz metálica, anunciei o ocorrido para meus colegas de trabalho. Pedi sugestões de como me livrar do hospedeiro, foi quando minha superior puxou da sacola um alicate de unha. “Ao invés de puxar, corta o fio” – sugeriu. E lá estava eu novamente no banheiro. Essa segunda tentativa foi ainda mais frustrante. Agora, sentia que só gente especializada poderia dar conta do valente ferro.
 
         Liguei para o consultório da Márcia, a minha ex-dentista. A secretária foi categórica: a Marcinha só tem horário para a próxima quinta. Expliquei o sinistro, relatei inclusive os detalhes sórdidos.  Nada, a megera não se comoveu com a minha bizarra situação. “Só na próxima quinta” – repetiu. Disposto a assassinar aquela coisa que não se limitava em ficar quieta entre meus lábios e, agora, pulava para fora de minha boca, entrei num táxi e tracei meu destino: o Centro de Porto Alegre – lugar onde tudo se resolve. Pagando, é claro.

            Acredito em destino. E foi ele, ao abrir a porta do táxi, que colocou no meu caminho uma menina vestida com uma placa em forma de sanduíche anunciando atendimento dentário imediato. Não precisou de muita conversa para ela me guiar até o local. Até chegar lá, pensamentos estranhos começaram a surgir em minha mente. Seria ela funcionária de uma quadrilha de ladrões de órgãos malvados? Eles me deitariam na cama de dentista, me dariam sonífero e tirariam todos os meus órgãos saudáveis. Morreria sem coração, mas com um ferro entre os lábios. Ò, que triste fim!

           Fui recepcionado no abatedouro – opa, consultório – por uma mocinha com os dentes branquinhos como nas propagandas de Colgate. Com o braço direito, ela indicou o lugar onde seria realizada a consulta. Pediu para esperar lá. Apressado, praticamente saltei até a cadeira grandona e azul. A ansiedade foi tanta que meus olhos míopes não viram a luminária que estava acima da minha cabeça. Um plac, um gemido baixo de dor e o ferro estava no chão.

          O desgraçado do ferro não me humilharia mais. Juntei-o do piso com cheiro de cera e o escondi no bolso. Quando a dentista chegou, inventei que estava ali porque precisa retomar meu tratamento dentário, há muito tempo abandonado. Resultado da consulta: tenho uma cirurgia no céu da boca marcada para o fim do mês.

A casa das bicicletas de Iberê

Junho 3, 2008

         Devidamente encasacado, visitei o Museu Iberê Camargo no último sábado. O que vi foi um prédio em que as janelas viram molduras para a linda paisagem formada pelo rio Guaíba e a obra de uma mente inquieta imortalizada em quadros onde os protagonistas são: carretéis, ciclistas e idiotas.

         Os carretéis remetem à infância de Iberê Camargo. Os ciclistas foram incorporados em sua obra depois da tragédia que marcou profundamente sua vida. Na década de 80, o artista foi abordado na rua por um homem que o agrediu verbalmente. Irritado, retrucou e foi violentamente empurrado contra o chão. O desfecho: Iberê, que portava uma arma, atirou e pôs fim àquela vida errante. Foi preso em flagrante e, mais tarde, libertado por legítima defesa. A repercussão do caso foi imensa e muita gente torceu o nariz para ele. A partir daí, surgem as idiotas. Nessa série, o artista – já com graves problemas de saúde – passa a retratar velhas bobas e desnudas que, em suas cadeiras de balanço, passam os dias vendo a vida apenas passar na frente de seus olhos míopes.  

         Parece que Iberê pintou seus últimos quadros com a mesma intensidade dramática com que Dostoievski escreveu o livro Memórias do Subsolo. Certa vez, o artista plástico disse:

         “O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida”.

         Ao sair do museu, quase fui atropelado por uma biclicleta que descia a Padre Cacique em alta velocidade. Por um instante, tive a sensação de ser perseguido por um ciclista de Iberê.