Devidamente encasacado, visitei o Museu Iberê Camargo no último sábado. O que vi foi um prédio em que as janelas viram molduras para a linda paisagem formada pelo rio Guaíba e a obra de uma mente inquieta imortalizada em quadros onde os protagonistas são: carretéis, ciclistas e idiotas.
Os carretéis remetem à infância de Iberê Camargo. Os ciclistas foram incorporados em sua obra depois da tragédia que marcou profundamente sua vida. Na década de 80, o artista foi abordado na rua por um homem que o agrediu verbalmente. Irritado, retrucou e foi violentamente empurrado contra o chão. O desfecho: Iberê, que portava uma arma, atirou e pôs fim àquela vida errante. Foi preso em flagrante e, mais tarde, libertado por legítima defesa. A repercussão do caso foi imensa e muita gente torceu o nariz para ele. A partir daí, surgem as idiotas. Nessa série, o artista – já com graves problemas de saúde – passa a retratar velhas bobas e desnudas que, em suas cadeiras de balanço, passam os dias vendo a vida apenas passar na frente de seus olhos míopes.
Parece que Iberê pintou seus últimos quadros com a mesma intensidade dramática com que Dostoievski escreveu o livro Memórias do Subsolo. Certa vez, o artista plástico disse:
“O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida”.
Ao sair do museu, quase fui atropelado por uma biclicleta que descia a Padre Cacique em alta velocidade. Por um instante, tive a sensação de ser perseguido por um ciclista de Iberê.
Tags: Artes visuais, As biclicletas de Iberê, As idiotas, Dostoievski, Exposição Iberê, Fundação Iberê Camargo, Iberê Camargo, Memórias do Subsolo, Museu Iberê Camargo, Novo museu de Porto Alegre

Junho 3, 2008 às 12:08 pm
Lindo museu! Lindo, lindo!
Segundo a RBS: “O branco das paredes serve de moldura para as telas do artirsta” ou algo do tipo, quando falaram do arquiteto.
Ele é português e é dos grandões do mundo ;D
Junho 4, 2008 às 7:02 am
Conhecendo o Terra do Rafael agora. Abraço.
Junho 20, 2008 às 2:46 pm
Opa! Um amante da arte em Porto Alegre!
Temos muito o que conversar. De bom gosto o blog. Parabéns!
Setembro 7, 2008 às 4:11 pm
Puxa, muito legal mesmo a nova sede da Fundação..
Fiquei impressionado desde o momento da chegada ao prédio até a saída… e sobre as biciclitas.. rrrsrssss.. também achei que falto alguma coisa…. pra facilitar a travessia dos pedestres…mas também, é o unico ponto negativo…
tem um texto sobre a Fundação no meu blog… http:\\www.misterchiba.blogspot.com
Dezembro 29, 2008 às 4:43 pm
“O drama trago-o na alma…” é…quem ñ. traz na alma algum drama, eu mesma trago inúmeros.
Mas a viúva do Iberê deve se sentir orgulhosa de ver as obras do seu marido em um museu tão lindo! Onde até os pesadêlos têm a chance de se tornarem sonhos. Olha só no que pode resultar dos talentos de um pintor com os de um arquiteto, o nascimento da poesia, da doçura e da beleza.
Sou de São Paulo, mas me sinto tri orgulhosa desta
obra como se fosse gaúcha, tchê!