O telefone toca. No outro lado da linha, uma voz com sotaque de caubói americano anuncia: acabo de ganhar dois convites para o Cirque de Soleil. Alegria! Alegria! Sou um cara de sorte. Comemorei a boa nova com um fatídico lanche. Na primeira mordida no sanduíche, que deve ter sido feito à base de pedra brita, o ferro brotou na minha boca.
Tentei manter a classe. Empurrei o ferrinho de volta com toda a sutileza que não tenho – estou inovando. Caminhei pausadamente até o banheiro. Lá, entendi o ocorrido: o fio metálico que dá sustentação ao meu aparelho dentário partiu-se no meio. Não havia motivo para pânico, puxaria o dito cujo e marcaria uma consulta com minha dentista no dia seguinte. Tudo estaria resolvido. Entretanto, não foi esse o fim desta história.
O ferro não saía e as minhas tentativas de arrancá-lo estavam deixando os outros presentes no banheiro preocupados. “Tu vais te matar, maluco” – disse um cara que secava as mãos com uma toalhinha da Mônica. Depois de embasada advertência, resolvi pedir ajuda.
Com uma voz metálica, anunciei o ocorrido para meus colegas de trabalho. Pedi sugestões de como me livrar do hospedeiro, foi quando minha superior puxou da sacola um alicate de unha. “Ao invés de puxar, corta o fio” – sugeriu. E lá estava eu novamente no banheiro. Essa segunda tentativa foi ainda mais frustrante. Agora, sentia que só gente especializada poderia dar conta do valente ferro.
Liguei para o consultório da Márcia, a minha ex-dentista. A secretária foi categórica: a Marcinha só tem horário para a próxima quinta. Expliquei o sinistro, relatei inclusive os detalhes sórdidos. Nada, a megera não se comoveu com a minha bizarra situação. “Só na próxima quinta” – repetiu. Disposto a assassinar aquela coisa que não se limitava em ficar quieta entre meus lábios e, agora, pulava para fora de minha boca, entrei num táxi e tracei meu destino: o Centro de Porto Alegre – lugar onde tudo se resolve. Pagando, é claro.
Acredito em destino. E foi ele, ao abrir a porta do táxi, que colocou no meu caminho uma menina vestida com uma placa em forma de sanduíche anunciando atendimento dentário imediato. Não precisou de muita conversa para ela me guiar até o local. Até chegar lá, pensamentos estranhos começaram a surgir em minha mente. Seria ela funcionária de uma quadrilha de ladrões de órgãos malvados? Eles me deitariam na cama de dentista, me dariam sonífero e tirariam todos os meus órgãos saudáveis. Morreria sem coração, mas com um ferro entre os lábios. Ò, que triste fim!
Fui recepcionado no abatedouro – opa, consultório – por uma mocinha com os dentes branquinhos como nas propagandas de Colgate. Com o braço direito, ela indicou o lugar onde seria realizada a consulta. Pediu para esperar lá. Apressado, praticamente saltei até a cadeira grandona e azul. A ansiedade foi tanta que meus olhos míopes não viram a luminária que estava acima da minha cabeça. Um plac, um gemido baixo de dor e o ferro estava no chão.
O desgraçado do ferro não me humilharia mais. Juntei-o do piso com cheiro de cera e o escondi no bolso. Quando a dentista chegou, inventei que estava ali porque precisa retomar meu tratamento dentário, há muito tempo abandonado. Resultado da consulta: tenho uma cirurgia no céu da boca marcada para o fim do mês.










4 Comentários
Junho 12, 2008 às 7:09 am
Que coisa bizarra, Rafa! Como assim um cirurgia no céu da boca?
Junho 12, 2008 às 7:10 am
Adorei o topo novo!!
; )
Beijocas
Junho 12, 2008 às 7:36 am
Péssimo ocorrido, mas belo texto. Parabéns. =D
Junho 13, 2008 às 3:16 am
Que situação, hein? Parece que vi. Muito bem contada…