Tati adorou a frase escrita na contracapa do livrinho que ganhou da avó: “coisas importantes só devem ser confidenciadas à pessoas importantes”. Contaminada por uma sensação de ter descoberto algo muito significativo, colocou a dita cuja no nick do MSN. E, contou a todos.
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Importante
Julho 1, 2008O certo
Junho 26, 2008Ele abriu a carteira. Dentro: mil reais que seu pai havia lhe dado para pagar o aluguel atrasado. Alisando as vinte notas com oncinhas, pensou em dar outro rumo àquela dinheirama.
Pensou em comprar uma passagem para Buenos Aires e tornar-se vendedor de artesanato na feira de San Telmo. Pensou em aplicar tudo na bolsa de valores e esperar o dinheiro render novos animais. Pensou em mentir que foi assaltado e gastar tudo em revistas de quadrinhos. Pensou em comprar flores de plásticos e vender aos domingos nas portas dos cemitérios. Pensou também em doar o dinheiro para o primeiro mendigo que cruzasse o seu caminho.
Acabou fazendo o certo. Pagou setecentos reais do valor do aluguel. O restante chama-se juros.
O dono da cabeça
Maio 28, 2008A cabeça caiu no chão e partiu-se em duas. Numa delas, o garotinho em forma de miniatura permanecia estático. Na outra, haviam gentinhas – no diminutivo, pois eram diminutas – de todo o tipo que esse mundo já viu. Elas corriam de um lado para o outro como se estivessem procurando uma porta.
Passado alguns instantes, as pessoinhas começaram a ficar cansadas e caíram exaustas no meio dos miúdos do crânio partido. Foi quando o garoto pequenino pulou para a outra parte e matou a todos. Agora, ele é o único dono da cabeça.
O sono dos outros
Maio 20, 2008O filme acabou. Ela virou a cabeça para o lado esquerdo e adormeceu. Fechei os olhos e tentei dormir também. Sonhos ou pesadelos não vinham. Não que fosse avesso a transformar meu corpo num receptivo templo do sono para meu amor, o que fazia os meus olhos ficarem abertos eram as coisas que permaneciam vivas em minha volta.
Enquanto ela parecia ter atingido o êxtase, tudo que me cercava incomodava. A televisão que permanecia ligada, o vento frio que entrava pela janela e fazia os meus DVD’s guerrearem numa luta de empurra-empurra e, agora, a minha incapacidade de adormecer como ela. Se fosse um jogo, teria perdido.
Comecei a pensar em formas de como escapar daquela posição sem acordá-la. Contudo, cada pequeno movimento que fazia parecia trazer-lhe mais próxima para a realidade dos acordados. O sono dela parecia tão frágil quanto às mãos pequeninas e branquelas que jaziam sobre o meu peito.
O relógio do rádio – que piscava com sua luz azul detestável - me avisava que já havia passado intermináveis quarenta minutos. Ela realmente tinha alcançado as profundezas do sono e talvez fosse despertar somente no outro dia. Eu estava fadado a passar a noite em claro, acorrentado ao sofrimento das minhas manias não praticadas naquela noite e de meus pensamentos inconvenientes. Aliás, agora estava a pensar sobre não ter escovado os dentes. Quantas bactérias teriam aproveitando esse deslize e se instalado na minha boca? Estava decidido: na segunda marcaria uma consulta no dentista.
Meu corpo também dava sinais de cansaço. Os braços pareciam um pedaço de madeira podre sendo atacado por cupins e a bexiga estava disposta a transformar meus lençóis num mictório fedorento. Foi quando, como num sonho, a claridade da janela escancarada mostrou-me os olhos dela abertos. Ela beijou-me a bochecha e disse:
– Amor, não consigo dormir. Você pode fechar a janela e desligar a televisão?



