Posts Tagged ‘Literatura’

Tudo muito fantástico

Julho 2, 2008

         

          Quando o relógio marcou três horas e quinze minutos desta madrugada, meus olhos acabaram de ler o último conto do livro Ficção de Polpa – Volume 2. Organizado pelo escritor Samir Machado de Machado (nome legal, né?) e publicado pela Não Editora, essa segunda edição deixa um pouco de lado os zumbis e aposta em histórias protagonizadas por robôs, alienígenas, fantasmas e armadilhas pregadas pelo nosso imaginário. Tudo muito fantástico.

          Entre os contos, On/Off, de Antônio Xerxenesky, foi o que contribui para que tivesse uma noite mal dormida, no bom sentido da expressão. Explico: a narrativa discorre sobre os botões modernos – antidepressivos, calmantes e afins – que acabam por guiar nosso comportamento. Depois da leitura, desisti de tomar meu remédio para pegar no sono. Afinal, mais vale uma insônia sincera do que um sono falso.

O dono da cabeça

Maio 28, 2008

         

         A cabeça caiu no chão e partiu-se em duas. Numa delas, o garotinho em forma de miniatura permanecia estático. Na outra, haviam gentinhas – no diminutivo, pois eram diminutas – de todo o tipo que esse mundo já viu. Elas corriam de um lado para o outro como se estivessem procurando uma porta.

          Passado alguns instantes, as pessoinhas começaram a ficar cansadas e caíram exaustas no meio dos miúdos do crânio partido. Foi quando o garoto pequenino pulou para a outra parte e matou a todos. Agora, ele é o único dono da cabeça.

O silêncio dos amantes

Maio 12, 2008

        Estou numa fase “contos fantásticos”. No momento, só quero saber de realidades deformadas, inventadas, fabulosas e, óbvio, fantásticas. Contudo, a ficção baseada na realidade real foi quem me fez ficar de pé quase uma hora a fio na Livraria Bamboletras. O motivo: o livro  O Silêncio dos Amantes, da Lya Luft. Como o título sugere, a obra trata do que as pessoas deixam de dizer umas às outras e das consequências que isso acarreta em suas vidas. Aliás, essas sempre são bem feiosas e tristes. Por isso, defendo: grite, chore, espanque – de leve -, mas sempre fale tudo. O silêncio só favorece aos psicólogos.

Leia um trecho do livro: 

        “Quando meu fi lho tão querido sumiu, quando se transformou, se matou, se jogou ou caiu da Pedra da Bruxa, se perdeu no mato – ou saiu voando e nunca mais voltou –, entendi que nossa cumplicidade só existia na minha imaginação. Essa foi a sua verdadeira morte: nossa relação tão especial era mentira. A boa vida familiar era falsa. Andávamos sobre uma camada fina de normalidade. Por baixo corriam rios de sombra que eu não queria ver. Ele, meu filho tão extraordinariamente amado, era irremediavelmente sozinho – eu, que me considerava a melhor das mães, de nada adiantei.”